Uma das coisas que mais me custa é não poder ter uma figura paterna ao meu lado.
Não poder ouvir aquela voz masculina, não poder ter aquele abraço forte todos os dias,não poder ter aquele velho hábito de nos sentarmos todos à mesa à hora de jantar, como uma família feliz. Pode parecer parvo, mas tenho saudades até das discussões, das palmadas que levava quando fazia asneiras, de ele me dizer "não faças isso", saudades de todas as manhãs ir tomar o pequeno almoço àquela pastelaria, e em seguida ir para a escolinha a cantar em "inglês" o meu suposto inglês quando era miúda, toda contente, saudades de poder estar com um de cada lado sentados no sofá a ver televisão, saudades dos passeios em família, e das brincadeiras, dos passeios de mota com ele junto ao rio, dos natais e de todas as outras festas com a presença dele, de pegarmos no carro e irmos os 3 jantar fora ao pôr-do-sol, das jantaradas lá em casa com montes de amigos, tenho saudades de tanta coisa.......................................
Fico preocupada por não saber como ele está regularmente, se está bem ou não, duvido que ele sinta a minha falta, pelo menos não sente tanta quanto a que sinto.
Ontem falámos em chamada ao telemóvel, à meses e meses que não o fazíamos, mas sinceramente não estava com muita vontade de falar com ele, rezei até para que não atendesse o telemóvel, eu não o conheço já e neste momento falar com ele é como falar com alguém desconhecido para mim quase, ele não sabe rigorosamente nada sobre mim, sobre o meu "eu" agora, nem eu sobre o dele.
Sei que ele está com problemas de saúde e isso deixa-me o coração nas mãos, porque ele é a pessoa que mais mal me fez, mas que eu continuo a amar como se nada se tivesse passado, é um amor incondicional,amor de filha.
19 de fevereiro de 2011, foi a última vez que o vi, não consigo descrever qual foi a sensação, nunca na vida me tinha sentido assim e graças a deus nunca mais me senti, sem exagerar, quando o vi, o meu corpo não parava de tremer e as lágrimas não paravam de correr eu imobilizei completamente e senti me enclausurada num espaço minúsculo, apertado e frio onde eu não tinha um suporte.. não consigo explicar o que senti..foi a pior sensação da minha vida, eu não queria chorar, mas foi uma coisa absolutamente inevitável, por mais que eu tentasse eu não conseguia parar, as lágrimas escorriam e pareciam não ter fim.
Apesar de todo o mal que ele me fez, que foi enorme, ele abandonou-me numa altura frágil, a minha infância, graças a isso amadureci muito, e tive que ser forte até hoje, chorei dias a fio e acabou por se tornar em algo mais fácil de suportar, embora não o seja. Hoje em dia, fico triste com isso, fico magoada, sinto saudade, muita saudade, mas não choro como antes, muito raramente me cai uma lágrima relativamente a esse assunto. Ele foi embora, mas tive alguém que sempre me suportou e me apoiou como uma enorme heroína, esteve sempre a meu lado, com o maior sorriso na cara, mesmo que estivesse destruída por dentro, tudo isto só para me ver bem, sofreu muito mesmo, e nunca desistiu, muito menos de mim, nunca me abandonou nem sequer lhe passou pela cabeça fazê-lo, ela é sem dúvida a pessoa que mais amo neste mundo e de quem mais me orgulho, a pessoa que sabe tudo sobre mim, a quem não escondo nada e com quem mais desabafo, quem me dá mais na cabeça, mas quem mais me quer bem, e essa pessoa é a minha mãe, e a ela tenho de agradecer por tudo, e por mais que tente retribuir-lhe tudo nunca será suficiente.
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